"Nossa União é a Nossa Força"

Jimmy Luv entrevista Quilombo Hi Fi

1- Salve man! Quando você viu que queria trabalhar como produtor e técnico de som, voltado para o reggae?

Pertenci ao movimento punk na década de 90  e isso me deu muita experiência, muitas vezes organizava os sons em botecos nas quebradas, tinha Zine e também uma DISTRO pela internet, em época discadona. Tudo isso me levou a necessidade de aprender mais sobre áudio. Já escutava reggae na época punk, o convencional e essencial Bob, Peter, Burning entre outros. Quando conheci Bad Brains, que foi um divisor de águas para mim, vi realmente que teria que fazer toda ação e ativismo que já fazia numa maneira “PMA”  – Positive Mental Atittude, me voltei totalmente para o reggae, comecei a trampar em alguns estúdios e de forma autodidata aprender os conceitos da engenharia de áudio e também desenvolvi conceitos de produção, que implica em arranjar e literalmente dar “pitacos” e todo o auxílio aos músicos.
Hoje sou produtor também de diversos estilos e alguns discos já lançados pela prefeitura.
Nesse tempo junto ao Miguel (ex-integrante “produtor de eventos” do dubversão), fundamos um estúdio público no Centro Cultural da Juventude onde gravamos gratuitamente bandas através de inscrição simples, esse trabalho tem 5 anos e nos rendeu diversas coletâneas desses materiais registrados.
Podem conhecer meu trabalho além reggae no http://escuta.estudiolivre.org , baixem as coletâneas no link , Selo CJ lab C.

2- No seu álbum “Dub Against Politricks”, além de fazer uma boa produção você ainda cantou em algumas faixas, o que é raro para um produtor. Como foi fazer esse álbum?

Esse album é um catado dos riddims que fiz e que não consegui ver muito futuro.
Em uma semana que tive problemas familiares, resolvi escrever algumas coisas e nessa mesma semana gravar as faixas e dubmixar todas.  Billie “El Brujo”, meu irmão, fez a capa e resolvi lançar na Net, a princípio era só o “DIASPraORAção” que seria lançado, coloquei para baixarem. Na mesma semana resolvi colocar todas as canções.
Pode perceber que faço no impulso, então acabei lançando no “Dub contra os truques políticos” tudo que achei de mais especial em minhas letras e mixagens. Também pode ser baixado na NET “di grátis”!

3- E os EPs “Ina Digikal Highlights Of Brazilian Dub” e “Dias Pra Oração”?

O EP digikal Highlights foi especialmente para a Transmitter, um netlabel de som livre que tem na internet.
Caras como o Marcos merecem atenção, o cara montou essa parada que distribui todo tipo de música eletrônica do Brasil e do mundo. Entrou o meu disco devido ao Dubmastor, produtor de maringá que me apresentou ao Marcão. Fiz dedicado a ele que  pediu 4 sons instrumentais, então mandei o que tinha de melhor, já o “Dias pra oração” como disse, foi prévia do “dub against politricks”.

4- Pra deixar o grave redondo, que equipamentos você usa pra produzir?

Então mano, eu uso bons timbres, como sabe quase todos os sons são digitais, difícil eu gravar um bass tocando, até por que sou fã número um dos stepper britânicos e procuro não fugir dos modes para fazer isso. Uma boa mesa com bons equalizadores, bons compressores e um pré-valvulado que passo e repasso tudo que produzo, esse é meu queridinho do estúdio.

5- O que podemos esperar das suas produções?

2010 foi perfeito, gravei um cara que nunca iria imaginar, Jah Youth (Big Youth)anos atrás assiti rockers e este ano gravei o cara, um engenheiro terceiromundado como eu e amante da cultura reggae como eu não poderá jamais descrever isso, além de Welton Irie, Candiman, Afrikan Simba. Esses caras passaram pela minha sala de gravação e de lá sairam excelentes dubplates. Conhecê-los é impossível descrever, até mesmo com meu inglês. Mas com meu inglês meia boca, todos sabem o que é QUILOMBO (refúgio) e o mais importante sabem que aqui existe um HIFI (sound system) com esse nome. Que venha Max Romeo, espero ele no estúdio para uma dubplate session e acho que vai virar.

Cara tenho mixado e masterizado bastante , produzido pouco, a galera está drenando som na minha mão, com os resultados de nossos sons. Tenho mixado o pessoal do interior Radiola dub, Dubplay, Ganja Groove. Trampos que estou fazendo pros caras no maior prazer. Saulo e Pedro do Radiola para mim são os melhores produtores e criadores de arranjo que conheço, é incrível que ouvimos e quem não os conhece me pergunta: “isso é fulano de tal?” citando um gringo, não fazem idéia de que a textura de som que eles atingem é coisa brasuca coisa nossa. E a soma perfeita foi esses sons cairem na minha mão. Sempre temos insegurança com nossos sons, eu pelo menos sou assim, mas quando mixo sons de outras pessoas me sinto firme em falar que são excelentes mixagens , pois se tratam de excelentes músicas já prontas, só coloco a cereja em um saboroso bolo pronto.

Outro cara que não tenho palavras e virão mais e mais produças é Dubmastor, algumas dele mixo, como “Eek a Mouse” que ele gravou um tributo ao Sugar Minott lá em Balneário num riddim do “Cozinheiro” (como chamo Dubmastor).

6- Você tem uma sound, o Quilombo Hi Fi. Como é o trabalho da crew e como foi fazer as caixas da sound?

Para falar do nosso sound eu sou bem orgulhoso, somos em quatro, Lioness Laylah , I-Dren Dread, Julio Peppa e Eu.
A quase 4 anos estamos nessa correria árdua, produzimos sons, colecionamos vinil (formato ao qual somos fiéis), temos nosso selo que breve trará as nossas produções e dos parceiros em vinil. E também temos algumas armas dubplate, caso algum soundbwoy abusadinho queira nos sacaniar em algum súbito “clash”, mas quase todos são com letras conscious sem muito aquele lance de matar. Nós fazemos questão de matar com sons conscientes.

Resolvemos contruir as caixas , fiz uns cálculos de como seriam e a maneira mais fácil foi serrarmos e martelarmos nós mesmos. Com pouco de marcenaria que manjamos e o bom de acústica, fizemos um bloco de caixas da forma mais fácil que vimos, falou bem, gostamos. Hoje estamos com projetos novos de caixas mais elaboradas, mas como sustentamos com nossos trampos paralelos só depende de acumular mais grana para reformulá-las.

Lioness canta , mas também é geógrafa, contratada como técnica em Meio Ambiente da FIESP, IDren trabalha como técnico e câmera em produções de vídeos comerciais em diversos setores, Peppa é Dj e técnico de áudio, tem projetos como “Prato do Dia”, festas irreverentes voltadas para música brasileira e afro-grooves.

7- A cena soundsystem cresceu bastante aqui em SP, mostrando as verdadeiras raízes do reggae para o público através das festas no CCPC e em festas na rua mesmo. Qual é a importância e o impacto dessa cena?

Foda! única palavra que falo ao sentir e ver que cresce e fazer parte disso é mais Foda! ainda (risos)
A parada está nas fraudas se analizarmos do aspecto demográfico da nossa cidade, pouca gente conhece ainda. Mas a tendência é crescer. Mas a real importância é que as pessoas abram seus ouvidos para a música de Jah, pois ela salva, me salvou, salvou a muitos e pode salvar mais. Jah toca no coração sem religião , sem fanatismos, coisas que não suporto. Acho que reggae é porta-voz de algo que sempre será novo, pois ele é como o despertar de um novo dia , é como um copo d’água em meio a uma cede desértica, por isso salva, é esperança.

Vejo a cultura reggae como um grande QG de recrutamento, para um exército de pacificação e luta rebelde, se todos ouvirem e traduzirem as letras saberão que a única voz que o terceiro mundo e o gueto tem de verdade é o reggae music. Tenho um tanque de guerra feito de madeira e falantes. O SOUNDSYSTEM é isso, o instrumento bélico de nossa guerra contra o sistema e também uma manifestação cultural das mais belas pois é do povo para o povo.

8- É difícil trabalhar com a cultura soundsystem aqui e conseguir gerar um capital?

Capital é treta, ainda Jimmy, temos nossas festas. Toda grana que ganhamos em festas “fechadas” revertemos para a manutenção do sound e também para podermos nos locomover para locais que não possam pagar carretos nas ruas. Tocamos em vários picos na cidade, mas nem todos os locais tem uma LOJA CONTEXTO (parceiros nossos da zona sul) ou um boteco qualquer que trinque a grana para transportarmos todas as paradas , que só cabem num caminhão baú grande. Então a exemplo quando fizemos Marcus Garvey Day na praça Zumbi dos Palmares,  na minha quebrada, vendemos bebidas pra trincarmos o carreto ja que o som foi na praça e energia é por conta da vizinhança que em todos os lugares que chegamos são apoiadores da coisa em si. Resumindo, não temos lucros, buscamos ter com as festas um dia, mas por enquanto contamos com outros meios e com nosso bolso de trabalhadores e apaixonados por reggae que somos.

9- Como é a história do calote dos gringos nos vinis encomendados por você na Alemanha?

Mandamos prensar nosso primeiro 7″, indicação de um produtor do Brasil que morava lá. A my45 na Alemanhã em Munique, foi bacana, pois confiei de todas as formas por ser indicação de um cara que já tinha boas referências e é muito considerado por essas terras, não mais por nós. Pagamos tudo certinho via depósito e tudo mais, ele respondeu 15 dias após dizendo que já estava sendo prensado tudo.
Depois ele mandou um email dizendo que enviou , mas não nos passou “tracking number” então cobramos o número para rastrearmos a encomenda, ele nos respondeu seco e em uma frase “-não há tracking number”, simplismente sumiu quase 1 mês, depois de varios emails sem êxito, começamos a tentar ligar e nada. Este produtor do Brasil disse quando demonstrei preocupação “-o cara é alemão pode confiar, se fosse brasileiro aí poderia ser um caloteiro”. Foi assim, exatamente. Então comecei a campanha online contra a my45, colocamos um advogado na jogada , pai de Lioness, que entrou em contato com o fulano, de nome ANDREAS BAUER. Este disse que houve problemas de extravio , mas nada convincente pois não havia provas do envio. Agora ele diz ter enviado novamente, mandou um tracking que se encontra estagnado a 2 meses na DHL. Já desistimos praticamente, pois a DHL só responde pra quem enviou e o cara não demonstra o menor interesse em nos ajudar. São 7 meses desde o dia do suposto primeiro envio.
Ainda mais depois da campanha, confesso que “agressiva” mas pudera depois da agressão maior que sofremos. Mas é difícil acreditar em tantas contradições que vimos. Hoje buscamos novamente acumular uma grana para reprensar. Existe para comprar na Europa, pois fiz uma micro parceria com MPC do digital que comprou algumas cópias antes mesmo de prensar e nos ajudou na distro através dos contatos dele. Coisa que foi de grande ajuda, mas hoje sinceramente não fariamos pois estamos mais independentes que nunca.
Estas o cara mandou corretamente, estranho não? São limitadas e podem ser compradas nas melhores lojas online do ramo. Um detalhe, eu comprei algumas para termos. Burrice? diria, mais uma vez paixão pelo que fazemos.
Isso pode nos render boas risadas futuras, já que é só um começo mal sucedido.
deixo as responsáveis por essa mancada as seguintes palavras.
Pessoas humildes são quase sempre desmorazadas pois no lugar de um cifrão estampado temos apenas suor do trabalho no rosto.

10- Valew man pela entrevista! Pra encerrar: Como é o dia-a-dia de Marcelo Jah Knomoh?

Trabalho de segunda a sexta no Estúdio lab C onde gravo, mixo , masterizo no estúdio e ministro cursos de produção musical nas ilhas de produção que o Centro Cultural da Juventude dispõe gratuitamente. Sou separado a 7 anos, agora moro com os coroas, crio minha filha que hoje possui 8 aninhos passa a semana toda comigo e com os avós, sou paizão aplicado desde a educação escolar até a escolha musical da neguinha Julia. Além no resto do meu dia costumo fazer paradas pro sound e algumas produças paralelas, uns beats pra uns parceiros do rap, tostar um green , jogar um winning11 com meu irmão, tenho 27 mas sou eternamente YOUTH!!! Estou cada dia com projetos novos sempre envolvendo música e cultura e lógico,  frequentador acíduo das festas do gênero.

Não existem lobos em pele de cordeiro, existem apenas lobos e cordeiros, mas num campo tão grande que é nosso mundo é dificil ver todo o horizonte e ao mesmo tempo olhar pra dentro de si e definir qual desses dois seres realmente somos. A fórmula e a forma que somos somente o amor incondicional definirá.

Contatos:
www.myspace.com/quilombohifi

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