Jimmy Luv entrevista Junior Dread
1- Desde muito jovem você tá em contato com a música. Como foi que você teve contato especificamente com o reggae e acabou virando vocalista?
Junior Dread: Comecei a cantar desde criança no coral da igreja Batista, meu avô era Pastor, meu pai toca violão. Com 12-13 anos já curtia o Dancehall e o Samba Rock (Double Barrel…My boy Lollipop) que rolava nas festas dos “Largatixa” nos bailes de periferia da época, sem saber direito o que era, mas com 15 anos realmente senti o Reggae bater forte quando ouvi Jamming do Marley pela primeira vez e depois de semanas, com um dicionário de inglês na mão, ter traduzido a letra que falava de Deus de uma forma revolucionária que acabou me dando força pra suportar as dificuldades da vida me fazendo buscar novamente o caminho certo e já com 16-17 largar a vida errada que eu levava.
Em 98 parei de estudar larguei a babilônia e fui passar um tempo morando na praia, depois de 1 ano naquele vai e vem voltei para SP para terminar a escola e trombei com o Douglas e o Rafael que já tinham a banda Reggae Style e estavam na caça de um vocalista.
2- Desde que você saiu da Reggae Style e passou pela Família 7 Velas você não lançou nenhum material solo. Como está o andamento do seu trabalho solo? Tem algo pra sair ainda esse ano?
Junior Dread: Minha relação com a música sempre foi um lance mais espiritual. Para as coisas acontecerem pra mim tem que ser de uma forma natural sem forçar.Tenho gravado com diversas Soundsystem da Itália, França, Japão, Alemanha, Portugal. No fim de 2009 lançaram um Dubplate com uma música minha pelo selo Scotch Bonnet do Mungos Hi Fi da Escócia, além de um Remix com o Chingy que saiu em várias Mixtapes.
3- No começo o seu estilo era mais pro reggae tradicional roots, no entanto hoje você faz o reggae contemporâneo, indo do new roots as batidas de dancehall. Como você vê o reggae hoje em dia sendo feito aqui no Brasil?
Junior Dread: Na minha concepção a música não tem raça, cor, classe social, a música é universal. Seja roots, dancehall, samba, MPB, rap, tudo depende do que eu sinto na hora que escuto, cada um tem sua forma de fazer. Eu faço de um jeito, fulano de outro e cada um tem seu valor. Venho desenvolvendo o meu som, procurando falar da realidade que eu vivo e sinto hoje de uma forma natural sem pressão. Pode ser no riddim, com banda ou acústico, pra um milhão ou pra uma pessoa, o que vale é a mensagem que se passa através da música.
Hoje o Brasil pode se orgulhar de ter uma cena “reggae” com bandas, Mc’s, cantores, soundsystem, festivais, etc. Apesar de ainda muito pequena e dividida, em relação a outros países, creio que só tende a crescer mais e mais. Só depende do compromisso de cada um, produtores, bandas, fãs…
4- O conceituadíssimo soundsystem escocês Mungos Hi Fi quando esteve de passagem por aqui até trouxe um vinil com um som seu, “No Time Fe Run”. Como rolou essa conexão de peso com eles?
Junior Dread: Logo quando peguei meu primeiro computador em 2006 fiz uma página no myspace e comecei a navegar por aquele mundo novo, até que vi a página do Mungos e me surpreendi com o nível da produção dos riddims deles, mandei um salve dizendo que era do Brasil e tal e os caras me responderam perguntando se eu não topava gravar. Foi aí que gravei “No time fe Run” sem pretensão nenhuma.
Nessa época eles tinham acabo de lançar um dubplate matador com Brother Culture e disseram que o meu seria o próximo. O tempo passou e quando eu já tinha até esquecido, em 2009 me escrevem dizendo que iam lançar o som. O disco acabou vendendo legal ajudando a divulgar meu nome na Europa e EUA e a pagar algumas contas atrasadas.
5- Por cantar também em inglês, você acha que seja mais fácil a aceitação no circuito reggae na gringa? Você tem pretensão de seguir uma carreira internacional?
Junior Dread: Infelizmente o inglês é uma língua muito forte, mas não creio que isso deva ser encarado como uma barreira ou regra pra ninguém porque se a música for realmente boa neguinho vai curtir. Foi assim com Jorge Ben, Fela Kuti, Alpha Blondi e muitos outros. Eu nasci sem condição nenhuma, num “cortiçozinho” na rua Cachoeira do Arari na Vila Guilherme Zona Norte de São Paulo, aprendi a cantar em inglês sem professor, adolescente, na marra com dicionáriozinho sempre na mochila pra passar as 2hs de ônibus da minha casa até a escola ouvindo as fitas cassetes do Bob Marley, Black Uhuru, Dennis Brown, sofrendo pra entender os patois jamaicano, sempre sonhando em cantar, conhecer outros países, culturas e o povo dizia que eu estava muito “loco” fumando demais. Hoje me sinto um cidadão do mundo e a mensagem que eu levo através da música é universal.
6- Você já teve a oportunidade de cantar fora do país, no Japão e na Alemanha. Como foram essas apresentações?
Junior Dread: No Japão em 2008 fui sozinho pra fazer 2 shows em Hamamatsu, uma cidade pequena, pra comunidade Brasileira, e lotou as duas noites. Chegando lá um japonês me chamou pra cantar em uma pico de Hip Hop só pra japonês e queria que eu ficasse por lá mais 1 mês pra aproveitar a temporada de festivais e tal, mas o meu visto era de 15 dias e pelo fato da imigração lá ser complicada não teve como. Nunca tinha saído do Brasil e fui parar logo no Japão com uma cultura milenar, totalmente diferente, mas que ama a música reggae e que me recebeu de braçoes abertos.
Em março de 2010 na Alemanha fui com minha esposa que foi convidada a divulgar o filme Antonia por lá e com a minha filhinha Sofia de 6 meses. Aproveitei essa viagem pra divulgar minha música por lá e acabei tocando em Berlim, Tubingen, Dusseldorff, Colonia e Frankfurt para um público misto de alemães e brasileiros, loucos pela música reggae, num frio abaixo de zero.
7- Aqui no Brasa você já cantou em diversos festivais e já dividiu o palco com grandes nomes do reggae. Quais foram os shows mais legais?
Junior Dread: Foram muitos Rasta, alguns que eu me lembro agora foi os primeiros num boteco da quebrada com o Reggae Style começando os instrumentos eram zuados meu violão elétrico “surrupiado” da igreja, som péssimo mas a vibração era 100%, outro já fazendo uma Tour com Luke Dube, Tribo de Jah, Nengo Vieira, Dago Miranda e Geraldo Cristal, passando por várias cidades do nordeste, conhecendo lugares e pessoas que ficaram na memória, como um show no Wet’n'Wild em Salvador lotado com crianças, jovens e velhos dançando e curtindo. Festival do Maranhão com Pioneers, Eric Donaldson, Pablo Moses em que cantei com Dennis Alcapone uma lenda que eu nem em sonho imaginava encontrar quanto mais cantar junto.
Vários shows da Associação Reggae na ZL, mas um que ficou na memória foi na Charles Miller para mais de 80 mil pessoas sem nenhuma atração do mainstrean, só bandas independentes.
Festival do Anhembi com Peter Brogs, Midnite. Vários shows pelo Brasil afora, Matinhos, Floripa, Minas, São José dos Campos, Curitiba, Espírito Santo, Natal, RJ, Fortaleza, Belém, Porto Alegre, são muitos os lugares especiais que Deus tem me levado através da música…
8- Apesar de você fazer o reggae contemporâneo, de modo internacional, você acha que ainda falta uma identidade nacional no reggae feito por aqui?
Junior Dread: O Reggae em si não é uma música original porque ele é fruto do nyahbingi, ska, rocksteady, gospel, mento, blues, calipso, etc. Creioque justamente por ser fruto de uma mistura tão grande é capaz de se comunicar com todos os povos e gerações. O Brasil nesse sentido sai na frente por ser um país multicultural de forte herança africana com capacidade para produzir muita coisa boa, só depende do músico saber usar tudo isso ao seu favor.
O que acaba acontecendo às vezes pela falta de informação, conhecimento ou proposta de cada um, é a propagação de cópias e mais cópias de fórmulas saturadas que acabam criando um estilo superficial que a mídia e até o público acaba rotulando de “Reggae de Cachoeira”, “Reggae de Maconheiro”, “Reggae Mela Calcinha”, “Reggae Rastafari”…
O que falta na minha opinião é cada banda ou músico conseguir trazer algo novo de diferente e singular para esse som que se encaixa perfeito em qualquer estilo.
9- A Reggae Style era uma banda bem conceituada no reggae nacional. Existem alguma chance de lançar um segundo álbum?
Junior Dread: O Reggae Style é minha família, nunca paramos de tocar, gravar, andar juntos, o lance é que uma banda para funcionar legal depende de vários fatores. Depois do primeiro disco decidimos dar um tempo do nome Reggae Style para poder desenvolver outros trabalhos porque a vida de músico não é fácil e a nossa realidade muito menos. Não estava dando para conciliar os shows com as contas, familia, aluguel, trabalho, etc. Mas todos nós sempre estivemos envolvidos na música de alguma forma.
O Douglas Earl tocando com o Filosofia, Leões, trabalhando em estúdio. O Pharellyn dando aulas, fazendo faculdade, tocando com o Leões, Filosofia. O Beto trabalhando em estúdio, tocando com a galera. O Junior Black tocando, gravando, trabalhando na serralheria. O Julio acabou mudando para Floripa e trabalha como comissário. Enfim o lance é que mesmo assim nunca deixamos de nos encontrar tocar, gravar e creio que em 2011, se Deus quiser tem um disco da pesada chegando.
10- Valeu Junior Dread pela entrevista! Pra terminar, uma curiosidade: o quanto o fato de ser casado com a Negra Li ajuda na divulgação do seu trabalho?
Junior Dread: De certa forma acho que sim. Nos conhecemos em 2005 cantando no CoralUSP,ela saindo do RZO e eu cantando no Reggae Style, acabei convidando ela pra gravar a faixa “Estamos em guerra”, depois ela e o Helião me convidaram para participar da música e do Clipe “Exército do rap”. Daí em diante sempre que dá tocamos juntos, ela do Rap e eu do Reggae a parceria perfeita. Talvez se eu estivesse atrás da “fama” ou de algo mais superficial o fato dela ser conhecida na mídia poderia servir para explorar esse lado, mas damos graças porque a nossa busca é outra.
No começo ela mesma e até o pessoal conhecido pesava na minha dizendo que eu deveria aproveitar os contatos, o espaço que ela tem para divulgar o meu trabalho na mídia, etc, mas sou tranquilo em relação a tudo isso e creio que quando é para, ser tudo flue naturalmente .
A Bíblia fala que “A mulher sábia edifica o lar e a insensata o derruba”, “Dois são mais fortes que um”, e é dessa forma que a gente vem construindo a nossa vida, a nossa realidade é muito parecida e a sintonia é a mesma. Tudo que vem fácil vai fácil, levo meu trabalho e minha vida como uma semente que se planta e que para gerar bons frutos precisa ser bem cuidada dia a dia. Tem hora de plantar, hora de colher, hora de correr e hora de esperar, como a Bíblia fala “Tudo tem seu tempo debaixo do sol”.
Contatos:
www.juniordread.com.br
www.myspace.com/juniordreadmusic
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gostei mto da entrevista, esse cara é bom mesmo!
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